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Jogo das múltiplas incoerências: quantas você consegue contar?

Recebi de uma leitora através da página do blog no Facebook o vídeo institucional do hospital Promater, de Natal/RN. Assisti e fiquei chocada com o ponto em que as coisas chegaram. Fui olhando e percebendo todo absurdo traduzido em imagens.

Primeiro, fico espantada com o fato de um hospital fazer um institucional incentivando e tratando com toda naturalidade uma cesárea. As instituições de saúde deveriam seguir as orientações de órgãos superiores, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), que indica um índice de 15% de cesarianas, referência adotada também pelo Ministério da Saúde.

Segundo, o bebê é mostrado como um prêmio para uma verdadeira plateia que o aguarda. Isso não me parece nada respeitoso com a criança que acaba de nascer e que deveria estar perto da mãe, sendo acalentada e amamentada.

Engraçado que é justamente esse “respeito” que a maternidade declara no fim do vídeo. “Carinho e respeito”. Francamente, parece ser assim?

Acho importante destacar que não estou condenando quem faz uma cesárea ou entrando na discussão parto normal x cesariana. Apenas estou manifestando meu repúdio a um vídeo de uma instituição de saúde que coloca uma cirúrgia como banal e como uma verdadeiro “serviço” oferecido, um processo de entrega de bebês.

Pelo respeito ao nascimento.

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Mídia, espetáculo do real e o 12/12/12

Hoje, não muito surpresa, acompanhei umas quatro ou cinco reportagens em diferentes meios de comunicação sobre o boom de nascimentos agendados para 12/12/12. Todos os materiais que vi, tanto em sites quanto nos canais de televisão, tiveram a mesma abordagem. Trataram o aumento das cesáreas e ouviram mães com argumentos como “é uma data legal”, “representa sorte” e até algo do tipo “é fácil de lembrar”.

Como jornalista, fico impressionada com a falta de preocupação em mostrar o “outro lado”. Não vi destaque em pautas relatando o nascimento de um bebê através de parto normal. Vão me dizer que nenhuma criança nasceu “voluntariamente” hoje?

Outra possibilidade seria mostrar o grande número de cesáreas, mas entrevistar um profissional ponderando os riscos de um nascimento agendado. Como um alerta, uma informação de verdadeiro interesse público.

No entanto, em um país com índice de cesarianas muito acima do indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – que é de 15% – a notícia do boom passa batido para a maioria das pessoas. Afinal, a mídia é um reflexo da cultura e da sociedade e na contemporaneidade o procedimento já está internalizado na mente do grande público. De tal modo, nada mais natural do que tratar como espetáculo a cesárea e prestar um desserviço dando audiência para mães alienadas e médicos omissos.

É um desserviço uma vez que os brasileiros acreditam mais na mídia do que no governo, segundo pesquisa da agência de notícias Reuters, divulgada no artigo “A construção do real no telejornalismo: do lugar de segurança ao lugar de referência”, de Alfredo Eurico Vizeu Pereira Junior e João Carlos Correia. Segundo os autores, os resultados do estudo reforçam a importância de um olhar mais atento sobre o jornalismo, pois os conteúdos veiculados “contribuem diariamente, de forma relevante, para a construção de parte da realidade social da realidade brasileira”. Além disso, os pesquisadores ressaltam: “A imagem que a mídia constrói da realidade é resultado de uma atividade profissional de mediação vinculada a uma organização que se dedica basicamente a interpretar a realidade social e mediar os que fazem parte do espetáculo mundano e o público”.

Ou seja, é uma via de duas mãos. A mídia reflete os valores sociais e as pessoas legitimam através dos meios de comunicação determinados conceitos ou certas realidades.

Assim, as reportagens sobre os nascimentos no 12/12/12 simplesmente reforçam o que já sabemos: a cultura da cesárea tá aí, não dá para negar. Agora, eu pergunto: mas dá para mudar?

Penso que sim. Eu quero acreditar que sim.

Enquanto isso, faço a minha parte, como jornalista, como mãe e como pessoa preocupada com o respeito ao nascimento e à criança. O que está ao meu alcance é refletir, discutir e informar. E isso eu vou fazer sempre.