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Enquanto espero

Faço listas, faço planos, leio, estudo, escrevo.

Curto o Vítor. Amasso. Abraço. Agarro. Dou colo. Beijos. Digo não. Digo sim. Ensino. Tento ensinar.

Como, tenho azia. Sinto dor. Coluna. Coluna. Coluna.

Vivo um pouquinho de tudo. Das aulas, do trabalho, da família, da casa.

E assim já se passaram praticamente 30 semanas.

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A viagem dividida e o tempo que não passa

Quando eu era criança minha mãe dividia a viagem em trechos. Se eu perguntava: “A gente tá quase chegando?”, ela respondia que faltavam tantos pedaços. Cada referência era de um ponto a outro, como da ponte até a polícia, do parque até o trem, e assim por diante.

Acabei adaptando a tal contagem de tempo para diversas situações da minha vida. A segunda gravidez, por exemplo, foi toda dividida em eventos. Primeiro o início do mestrado, depois o aniversário do Vítor,…

Enquanto eu tinha algo por esperar, digamos assim, uma etapa seguinte, a gravidez simplesmente passava junto, sem muita ansiedade. Acontece que minha última referência acabou na metade de maio e não consigo pensar em nada grande para usar de marcação. Resultado? Penso todo dia no parto e no nascimento da Clara.

Coisa de doido? Sim, eu sei. Mas preciso urgente de novos pedaços na minha linha do tempo.

Grávida rumo ao terceiro trimestre

ou
Ela está descontrolada

É muito fácil descobrir o estágio da gestação de uma mulher.

As que estão no primeiro trimestre geralmente andam pálidas vagando por aí, enjoando até com programa de culinária, mas com uma fome proporcional ao sono. Para confirmar a teoria coloque um prato de frutos do mar perto dela. Se vomitar, fazer a maior cara de nojo ou, em último caso, devorar tudo, é porque sim, ela está com menos de três meses.

As grávidas no segundo trimestre caminham com a barriga jogada para a frente, para exibir a pança, mesmo que ela ainda possa ser confundida, em alguns casos, com gordura pura. Possuem um sorriso brilhante no rosto, mas não se engane, elas mordem. Comentários bobos como “que bom que vai ser um menino”, “vai ser uma menina bonita como a mãe” ou “que legal, um casal” podem despertar uma fúria sem tamanho. Cuidado. Fuja dos clichês, ou melhor, bico calado.

Já as grávidas no terceiro trimestre (ou que estão quase lá) são inconfundíveis. Elas tomam decisões que prometem mudar a vida de cinco em cinco minutos. Estão sempre pensando em alguma coisa para reformar ou comprar. Deixam aberta uma tab escondidinha no navegador com um site de roupas ou acessórios de bebê. A cada cem palavras que falam, uma é parto. Além disso, possuem pelo menos três listas diferentes em pequenos papéis soltos na bolsa (uma da mala da maternidade, outra de quem avisar quando o bebê nascer e assim por diante).

Eis que já me encontro rumo ao estágio três. Quer comprovar? Bem simples… basta eu contar que dispensei a empregada em definitivo esta semana e acabei de fazer uma matéria sobre cuidados humanizados com recém-nascidos para o jornal que trabalho (texto repleto da palavra parto, pois não vale só falar sobre o assunto, dá para escrever também). Tá bom assim?

Dificuldades gravidícias

Fechando praticamente 5 meses de gravidez (sim, tempo VOA, meu povo) começo a lembrar de algumas dificuldades gravidícias até o momento arquivadas na memória seletiva materna (provavelmente perto da gaveta cerebral onde está guardada toda e qualquer recordação da dor do parto).

Mesmo com uma gravidez praticamente atrás da outra existem coisas que a gente esquece fácinfácin.

Sexta fui na biblioteca (vida de mestranda, a gente vê por aqui) e comecei a procurar um livro conforme aqueles códigos doidos que demoram a fazer sentido. Vou catando por aqui e por ali até que acho o primeiro título. Adivinha onde? No lugar mais alto da estante. Largo o celular e a carteira no chão com a maior desenvoltura que a pança permite e me preparo para dar um incrível salto, já que meu um metro e meio de sol (tá, um pouco mais, gente) não era suficiente. Puxo a calça com elástico para cima e a blusa meio toda curta para baixo e pulo. Barriga de fora, peito voando, provavelmente uma cena linda de ver. A mais pura beleza e o brilho da maternidade (só que not). Óbvio que não consegui pegar o exemplar de primeira, mas nada que três ou quatro tentativas tão graciosas quanto a inicial não resolvessem.

A segunda cena do recordar é viver aconteceu em casa, no quarto do Vítor. Ele, pela milésima vez, espalhou as bolinhas da toca pelo apartamento inteiro. Eis que acho duas perdidas embaixo do berço e me abaixo para pegar. Estico o braço e… nada. Falta algo em torno de meio centímetro para eu conseguir. E que meio centímetro sofrido, vou te contar. Cofrinho de fora, cara grudada no piso, barriga esmagada e toda força do mundo para chegar até a bolinha. Depois de alguns longos minutos consigo. Jogo as bolinhas com a maior fúria na toca e juro pra mim mesma que na próxima vez elas podem apodrecer onde quer que estejam.

É muita ternura vinda de uma grávida, não? E a cada dia lembro que as dificuldades só vão aumentar. Pelo menos uma coisa boa: da faxina eu escapo. Pobre, Fábio.

O primeiro casulo

Passei pelo primeiro casulo da gravidez do segundinho. Um momento de pensar em mim, na minha família e em tudo que estamos construindo.

Quando estava grávida do Vítor senti a necessidade de me fechar bem no final, poucos dias antes do parto. Desta vez foi mais cedo, mas com muitas chances de repeteco pra lá adiante.

Acontece que eu precisava me achar realmente grávida. Fisicamente estou bem, tive enjoos, porém bem menos do que na primeira vez. Com 10 semanas me sinto cheia de energia e ansiosa pelo que vem pela frente.

Mas é uma ansiedade diferente. Parece que o tempo tique taca em outro tempo. Mais lento, sem pressa. Como se eu tivesse entendido, pelo menos por enquanto, que tudo tem seu tempo e o deste bebê ainda vai demorar bastante.

Na outra vez eu tinha pressa pra saber o sexo, sentir o bebê mexer, ver a barriga crescer, arrumar tudo. Agora tenho tanta calma que até tinha me perdido nas semanas da gravidez. Só me atualizei dos números porque precisava marcar o exame de  translucência nucal.

Acredito que a mudança seja por já conhecer o processo e saber que a vontade de viver tudo de uma vez só apenas atrapalha. O final da gravidez do Vítor foi marcado por uma ânsia pelo parto que prejudicou um pouquinho o andamento das coisas e me tirou totalmente a tranquilidade. Desta vez quero fazer diferente e penso que é algo que deve ser trabalhado desde o início.

Sem falar que tenho meu menininho lindo que cada dia aprende ou observa algo diferente. Ele está cada vez mais fofo e apaixonante. Toda família está curtindo muito esta fase maravilhosa de descobertas.

É bom voltar aqui, viu? Já estava com saudade de escrever. Beijos 🙂

As perguntas que ouvi (com respostas)

– É sério?

Dã.

– Mas já?

Que coisa, né?

– Vocês estão preparados?

Sim, alugamos um bebê extra para ir treinando.

– Vai ser muito custo, né?

Sério, eu nem imaginava. O Vítor não custa um centavo por mês.

– Vocês queriam ou foi acidente?

Queríamos.

– Vocês não tem TV em casa?

Temos, mas tá faltando uma TV a cabo, se alguém quiser patrocinar.

– Preferem menino ou menina?

Desde que seja saudável tanto faz. De verdade!

– Mas o que vocês acham que vai ser?

Tanto eu quanto o Fábio achamos que vai ser um menino.

– Será que vai ser calminho como o Vítor?

De acordo com a minha bola de cristal e o meu desejo materno sim.