Mídia, espetáculo do real e o 12/12/12

Hoje, não muito surpresa, acompanhei umas quatro ou cinco reportagens em diferentes meios de comunicação sobre o boom de nascimentos agendados para 12/12/12. Todos os materiais que vi, tanto em sites quanto nos canais de televisão, tiveram a mesma abordagem. Trataram o aumento das cesáreas e ouviram mães com argumentos como “é uma data legal”, “representa sorte” e até algo do tipo “é fácil de lembrar”.

Como jornalista, fico impressionada com a falta de preocupação em mostrar o “outro lado”. Não vi destaque em pautas relatando o nascimento de um bebê através de parto normal. Vão me dizer que nenhuma criança nasceu “voluntariamente” hoje?

Outra possibilidade seria mostrar o grande número de cesáreas, mas entrevistar um profissional ponderando os riscos de um nascimento agendado. Como um alerta, uma informação de verdadeiro interesse público.

No entanto, em um país com índice de cesarianas muito acima do indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – que é de 15% – a notícia do boom passa batido para a maioria das pessoas. Afinal, a mídia é um reflexo da cultura e da sociedade e na contemporaneidade o procedimento já está internalizado na mente do grande público. De tal modo, nada mais natural do que tratar como espetáculo a cesárea e prestar um desserviço dando audiência para mães alienadas e médicos omissos.

É um desserviço uma vez que os brasileiros acreditam mais na mídia do que no governo, segundo pesquisa da agência de notícias Reuters, divulgada no artigo “A construção do real no telejornalismo: do lugar de segurança ao lugar de referência”, de Alfredo Eurico Vizeu Pereira Junior e João Carlos Correia. Segundo os autores, os resultados do estudo reforçam a importância de um olhar mais atento sobre o jornalismo, pois os conteúdos veiculados “contribuem diariamente, de forma relevante, para a construção de parte da realidade social da realidade brasileira”. Além disso, os pesquisadores ressaltam: “A imagem que a mídia constrói da realidade é resultado de uma atividade profissional de mediação vinculada a uma organização que se dedica basicamente a interpretar a realidade social e mediar os que fazem parte do espetáculo mundano e o público”.

Ou seja, é uma via de duas mãos. A mídia reflete os valores sociais e as pessoas legitimam através dos meios de comunicação determinados conceitos ou certas realidades.

Assim, as reportagens sobre os nascimentos no 12/12/12 simplesmente reforçam o que já sabemos: a cultura da cesárea tá aí, não dá para negar. Agora, eu pergunto: mas dá para mudar?

Penso que sim. Eu quero acreditar que sim.

Enquanto isso, faço a minha parte, como jornalista, como mãe e como pessoa preocupada com o respeito ao nascimento e à criança. O que está ao meu alcance é refletir, discutir e informar. E isso eu vou fazer sempre.

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4 ideias sobre “Mídia, espetáculo do real e o 12/12/12

  1. Juliane

    Eu fiquei muito triste tb com esse boom… na hora de falar de parto natural humanizado, somos vistas como retrógradas e sem noção… mas isso, marcar uma cesárea só por causa de data? Como poderemos garantir o direito de parir se o que seria nossa maior força, os meios de comunicação, nos derrubam? Tenso, né? Mas, parabéns pelo post!!! Vamos mostrar, mesmo que individualmente o quanto o parir é especial!!!

    Resposta
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